| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

A luz lusófona
Desde: 25/01/2017      Publicadas: 52      Atualização: 30/05/2017

Capa |  África lusófona  |  Arte  |  Atualidades  |  Desenvolvimento pessoal  |  Desportos  |  Gastronomia  |  Literatura  |  Moda  |  Mundo  |  Música  |  Política  |  Turismo  |  Vida estudante


 Literatura

  30/05/2017
  0 comentário(s)


Escolher os efeitos perversos - por Kezzia Apetogbo

Cada ano escrevem-se e publicam-se milhares de livros, ensaios, romances em todos os países do planeta. Na nossa época histórica na qual a democracia e a liberdade de expressão são promovidas e transformam-se cada vez mais em realidade é importante pôr-se algumas interrogações.

Cada ano escrevem-se e publicam-se milhares de livros, ensaios, romances em todos os países do planeta. Na nossa época histórica na qual a democracia e a liberdade de expressão são promovidas e transformam-se cada vez mais em realidade é importante pôr-se algumas interrogações. Se têm-se a liberdade de expressão, há também a liberdade de ser reconhecidos? Ou, de qualquer forma, haverá sempre um controle das mentalidades? Nossas escolhas são totalmente autônomas, independentes ou são dirigidas, influenciadas por agentes e fatores exteriores?

 

Se, como diz um princípio da ciência econômica, o Custo de Algo é o que se desiste para obtê-lo, seria bom saber sempre tudo aquilo que se desiste antes de fazer nossas escolhas. Porém, isso não é possível porque têm-se dois outros conceitos: o da assimetria da informação e o da informação imperfeita. As pessoas são completamente responsáveis pelo primeiro desses conceitos. Quanto ao segundo, não se têm culpa imputada porque somos seres humanos e não somos oniscientes e não temos ainda o poder de prever o futuro.

 

Quero, porém, limitar a reflexão ao âmbito dos livros, da literatura e dos ensaios. Nesse âmbito as casas de edição são os responsáveis pela assimetria de informação, pois são elas que editam e selecionam as publicações. São elas que decidem aquilo que merece ser lido pelo público e aquilo que não merece ser conhecido. Hoje em dia, as casas de edição baseiam suas decisões em muitos cálculos de oportunidade, de vantagens e de ganância em termos de prestígio e de finanças. Assim, quando nós nos encontramos nas livrarias, temos que escolher entre dezenas de centenas de propostas, mas não temos todas as propostas possíveis. É preciso notar que as casas não possuem um juízo de valor infalível: há livros que são publicados, têm uma publicidade de qualidade e são promovidos com grande entusiasmo, mas que na verdade não têm valor literário nenhum. Eis aqui os famosos Fenômenos literários do nosso século do marketing. Há livros que fazem cantar nossa alma, dançam com nosso espírito, nos oferecem lições de vida, e que são tesouros inestimáveis de erudição, mas não serão mais lidos, conhecidos pelo grande público.

 

Na nossa época, na qual as barreiras linguísticas e as fronteiras idiomáticas são cada vez mais tênues, outro problema é o da tradução dos livros. O Ocidente tem sido o centro da humanidade desde muito tempo, porém o Ocidente ocupa uma pequena parte do planeta. Sabe-se, por exemplo, que a Europa só fala cerca de 5% (239) das línguas que existem no mundo. Na África há ainda quase 2100 línguas e na Ásia mais de 2260. Na Europa, ignora-se quase totalmente a literatura africana e asiática que não foi composta em línguas europeias. Desde as nossas escolas até a universidade não se ensina quase nada das literaturas estrangeiras. E hoje, nos nossos dias, há autores, escritores dos quais não se faz a tradução deliberadamente (!) porque não se adaptam ao gosto dos leitores dos países estrangeiros. Só que o chamado « gosto dos leitores », seja as suas preferências, seja que eles poderiam escolher para ler, é decidido, escolhido, influenciado, incentivado por um grupo de interesse relativamente pequeno e sem completitude: as casas de edição e aquelas pessoas ou entes que detêm poder financeiro. Eles vão utilizar instrumentos, técnicas sub-reptícias, meios de comunicação e muito mais para fazerem com que o público faça isto ou aquilo em conformação com os interesses deles. Também por isso um outro princípio básico da economia é o que declara que as pessoas reagem a incentivos, que esses incentivos sejam claramente definidos, conhecidos e reconhecidos como leis e contratos ou que sejam subliminais, sub-reptícios como códigos morais individuais.

 

Contudo, no âmbito econômico existem ainda outros conceitos que podemos recuperar. Um desses é o que se chama «efeitos perversos ». Os efeitos perversos são nada mais do que um conjunto de fenômenos, acontecimentos, consequências negativas, nefastas que se produzem a partir da transposição na realidade dos princípios econômicos. A lei de Murphy e o efeito Boomerang são declinações do princípio dos efeitos perversos. No panorama de difusão da literatura e da tradução literária efeitos perversos podem ser considerados as livrarias independentes, que têm dimensões muito mais reduzidas, têm pouca visibilidade, se situam em lugares um pouco escondidos nas cidades. Elas são como uma forma de resistência ao controle das mentalidades e as limitações de liberdade de que sofremos sem darmos conta. As traduções são um relâmpago ainda maior e as pessoas que sabem línguas estrangeiras são as mais afortunadas, pois eles superam a questão que vê cada tradução como uma traição.

Recorremos ao caso do escritor que mora aos pés das montanhas do norte da Itália mora, cujas obras maiores ficaram desconhecidas pela maioria dos franceses, dos europeus e do mundo porque sua escrita « não se adapta ao gosto dos leitores ». No seu último livro temos a história da humanidade mesclada com pequenas tragédias de indivíduos que podemos ser nós mesmos, todo com uma escrita erudita e popular ao mesmo tempo, que toca a parte mais íntima do nosso coração e os antros mais obscuros da nossa psique de seres humanos. É questão de Angeles, mas vocês sabem, cada angel é terrível... é um livro que condena a humanidade e a homenageia ao mesmo tempo.

Tenho a grande sorte de ter recebido como presente a primeira edição original com dedicatória. Tenho a sorte de entender o italiano, entre outras línguas românicas..

 

Então faço não somente parte dos efeitos perversos, mas tomo a decisão em toda consciência de alimentá-los. Graças a esses efeitos perversos, muitos autores não vão subir a Damnatio memoriae. E vocês, qual é a vossa decisão ?!

 

 

 

 

 

 

  Autor:   Kezzia Apetogbo


  Mais notícias da seção Literatura no caderno Literatura
05/04/2017 - Literatura - Bom dia Camaradas - por Vanessa Jorge
Hoje, o livro que vos aconselho intitula-se Bom dia camaradas, uma das obras mais conhecidas de Ondjaki publicada em 2001. ...
01/03/2017 - Literatura - As virgens suicidas - Por Azelie Poulleau
No seu livro Jeffrey Eugenides nos leva na obsessão das irmãs Lisbon e das suas mortes. Uma atmosfera transcrita com perfeição na adaptação cinematográfica de Sofia Coppola. ...
01/02/2017 - Literatura - Por ti resistirei - Por Adriana Sousa Almeida
No segundo em que abri os olhos, vi um outro olhar, um olhar brilhante, um olhar sorridente, mas cheio de emoção, senti um calorzinho bom ao meu redor. Eram as mãos carinhosas daquele olhar que me aquecia, e nesse momento senti me seguro, tal e qual como me sentia minutos antes, quando estava envolto de uma água quente e protetora, e foi assim que ...



Capa |  África lusófona  |  Arte  |  Atualidades  |  Desenvolvimento pessoal  |  Desportos  |  Gastronomia  |  Literatura  |  Moda  |  Mundo  |  Música  |  Política  |  Turismo  |  Vida estudante
Busca em

  
52 Notícias